Bora Trocar reúne empreendedores em debate sobre geração de renda e trabalho para juventudes
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Iniciativa da Fundação Roberto Marinho e do Instituto Bora, evento trouxe experiências de pessoas que lideram negócios sociais em periferias

Empreendedorismo com impacto local, capaz de gerar renda e oportunidade de trabalho para as juventudes. O assunto pautou toda a programação do Bora Trocar, evento realizado pela Fundação Roberto Marinho e pelo Instituto Bora na última sexta-feira (30), no Auditório da Editora Globo, na Cidade Nova, Centro do Rio de Janeiro. O encontro reuniu profissionais de diversos setores para debater o empreendedorismo como ferramenta de combate às desigualdades sociais e estímulo ao potencial dos jovens em suas comunidades.
“Sabemos que o mundo do trabalho está em transformação e que muitas carreiras já não passam, necessariamente, pelo emprego formal. Nesse contexto de novas formas de trabalho, a agenda do empreendedorismo torna-se fundamental para as juventudes, pois amplia as oportunidades de geração de renda e impacta positivamente seus territórios. Com suas ideias, esses jovens têm a chance de resolver problemas e atender a demandas locais”, destaca a supervisora de inclusão produtiva da Fundação Roberto Marinho, Alzira Silva.
A co.liga é uma das iniciativas de inclusão produtiva realizadas pela Fundação Roberto Marinho. Trata-se de uma escola digital e gratuita de economia criativa, cultura e tecnologia, focada no desenvolvimento das juventudes. Segundo Alzira, o eixo de formação da plataforma oferece ferramentas para que os jovens pensem e proponham soluções para suas próprias comunidades por meio dos negócios, com forte incentivo ao empreendedorismo social.
Criado há quatro anos pela Ambev, o Instituto Bora surgiu com o objetivo de impulsionar a geração de renda por meio da empregabilidade e do empreendedorismo. “Junto com a Yunus Negócios Sociais, criamos o Instituto Bora para ser um espaço de estudos, de elaboração de projetos, financiamento e conexões entre organizações que fomentam a inclusão produtiva no Brasil”, explica o gerente de impacto social da Ambev, Wallace Ribeiro.
Parte dos convidados que falaram durante o evento integra o Bora Hub, uma rede mobilizada pelo Instituto Bora que conta hoje com mais de 130 membros nas cinco regiões do país.
“Existem muitas iniciativas de inclusão produtiva espalhadas ao longo do Brasil, mas elas trabalham de forma isolada. A ideia do Bora é juntar essas iniciativas para dar maior escala, maior impacto. Quando a gente fortalece esses negócios ou consegue ampliar a inclusão produtiva, você efetivamente transforma a vida das pessoas”, avalia Kaique Santana, da Yunus Negócios Sociais.
O empreendedorismo nos territórios
Thais Bernardes, fundadora do portal Notícia Preta, contou como a vivência no veículo a impulsionou a criar o Instituto Orire. “Não bastava a gente ter jornalistas negros, ter formação. Precisávamos colocar esses profissionais no mercado de trabalho”, afirmou. Dessa percepção, surgiu a escola de jornalismo antirracista. A iniciativa ganhou fôlego ao ser apresentada em um pitching do Instituto Bora, garantindo o primeiro investimento financeiro para sua expansão.

A alimentação como ferramenta de transformação pautou a trajetória da Gastromotiva, representada por Carolina Pires. “Sempre que escutamos um problema, pensamos em como a alimentação pode ser uma via de solução”, relatou. O negócio, que começou capacitando moradores em situação de vulnerabilidade no Jaguaré, em São Paulo, já formou mais de 15 mil pessoas. Hoje, o projeto abraça múltiplas ações de impacto social e geração de renda por meio da gastronomia.
A exclusão de serviços básicos também atua como motor para a inovação nas periferias. “É muito comum que o morador de favela precise usar o endereço de outra pessoa, fora da comunidade, para conseguir receber suas encomendas. O Delivery das Favelas nasceu dessa dor”, contou Anderson Marcelo. Criada para contornar esse apagamento logístico, a iniciativa começou em Duque de Caxias e hoje já atende outras favelas da região metropolitana, gerando renda para mais de 50 entregadores. Segundo Anderson, a principal barreira inicial foi o acesso ao capital para estruturar a operação.
Para tentar reduzir gargalos como esse, o evento também foi palco de um anúncio: uma iniciativa de microcrédito voltada a empreendedoras da rede do Instituto Bora. “O empreendedorismo feminino é uma das nossas principais pautas. Hoje anunciamos essa linha de crédito olhando para as mulheres que já estão ativas na nossa base, recebendo mentorias e ferramentas de trabalho. Elas agora poderão acessar esse recurso, que é fundamental para fortalecer e ampliar seus negócios”, ressaltou Wallace Ribeiro.
Habilidades técnicas e letramento de mundo
“O empreendedorismo surge para mim como surge para a maioria dos jovens negros no Brasil: por necessidade”, resume Luiza Felix, fundadora do Malawi Vegetariano. Após perder o emprego formal, ela estruturou o negócio em parceria com a mãe, encontrando na própria história e ancestralidade a inspiração. Integrante do último painel do dia, Luiza fez questão de pontuar que, ao lado do resgate identitário, o aprendizado prático sobre gestão financeira é vital para a sobrevivência de quem está começando.
Essa necessária combinação entre o saber comunitário e a técnica foi o ponto central da reflexão de Rodrigo Carvalho, professor da ESPM e da Escola Ort. Para ele, o empreendedorismo real exige visão crítica e leitura de território. “No passado, eu convivia com profissionais que dominavam a técnica, mas não entendiam de pessoas. Hoje, nas periferias, lido com empreendedores que entendem muito de gente, e o nosso papel é apenas somar com o instrumental técnico”, relatou. Segundo o professor, os negócios mais prósperos nascem para resolver as demandas da própria comunidade. "Eles criam essa conexão entre a periferia e o centro, mas sem perder a essência”, ressalta.
Nesse sentido, reconhecer a potência cultural do interior e das periferias do Brasil, e agir intencionalmente contra as desigualdades estruturais, é o caminho defendido por Alan Soares, do Movimento Black Money. Ele explica que o objetivo da iniciativa é a retenção e a circulação da riqueza entre pessoas negras e/ou de periferias: “Nosso trabalho é manter o dinheiro rodando do lado de dentro”.
Para que essa engrenagem de fato funcione, Alan destaca que é preciso articular inovação tecnológica, cobrança por políticas públicas e um compromisso real do mercado em escalar negócios liderados por pessoas negras e periféricas. Como prova de que a teoria se aplica na prática, ele citou a vertente educacional do movimento, o Afriktech, que já letrou mais de 30 mil alunos.
Saberes em rede
Acompanhando os debates da plateia, a produtora cultural e educadora Rafaela Romualdo Guse validou a importância dessa articulação. Moradora da Cidade de Deus, na Zona Oeste do Rio, ela atua como diretora do Instituto BR 55, organização que promove a inclusão e a igualdade racial por meio do Hip Hop, além de integrar projetos como o Favela Sem Fome, o Mulheres em Diversidade no Hip Hop e ações voltadas à comunidade LGBTQIAPN+.
“Me deixa feliz ver que as instituições que estão aqui percebem o quanto as comunidades têm um grande poder aquisitivo, que impacta bastante o Brasil, mas que às vezes não ganha a visibilidade que merece”, avaliou.
Também acompanhando os debates da plateia, os fundadores do Projeto Ganbatte, Karen Franquini e Adriano Morais, viram no evento uma oportunidade de fortalecimento em rede. A iniciativa conduzida por eles ensina tecnologia e letramento digital para empreendedores de grupos historicamente subrepresentados, contemplando a população negra, mulheres, comunidade LGBTQIAPN+, pessoas com deficiência (PCDs) e moradores de favelas e periferias.
A busca por parcerias estratégicas foi o que motivou a presença da dupla. “Um dos nossos focos também é a juventude, com esse olhar de inclusão produtiva e geração de renda. Nosso objetivo aqui é fazer a conexão com outras instituições que já trabalham essa temática”, explicou Karen.
Para Adriano, a força do evento também esteve na troca de saberes locais. “Todas as histórias de território compartilhadas, de pessoas que fizeram acontecer e estão mostrando os seus aprendizados, são muito inspiradoras e nos retroalimentam”, concluiu.
