Nova fase do programa A Cor da Cultura tem início e meta é formar quase mil educadores pelo país
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Profissionais formados vão atuar como multiplicadores da metodologia nos 31 municípios prioritários da Política Nacional de Equidade, Educação para as Relações Étnico-Raciais e Educação Escolar Quilombola

Traga um objeto que tenha um significado especial na sua vida. A partir dessa reflexão, proposta pela Fundação Roberto Marinho a educadores de todo o país, começou a nova fase do programa A Cor da Cultura, que tem como meta formar 950 profissionais que vão atuar como multiplicadores da metodologia em suas redes de ensino. Ao se conectarem com suas próprias histórias e ancestralidades, os educadores iniciam a sua formação com muito axé, palavra de origem iorubá que significa energia vital, força sagrada e é uma das premissas para a condução das práticas em sala de aula.
A iniciativa prioriza o atendimento de 31 municípios, definidos no âmbito da Política Nacional de Equidade, Educação para as Relações Étnico-Raciais e Educação Escolar Quilombola (Pneerq), e prevê a distribuição de 6 mil kits pedagógicos para apoiar a implementação local. A ação é fruto de uma articulação entre a Fundação Roberto Marinho, o Ministério da Educação (MEC), secretarias municipais, a Fundação Palmares e a Universidade Federal do Paraná (UFPR).
A Cor da Cultura é um programa voltado à valorização do patrimônio histórico e cultural afro-brasileiro e indígena. Criado em 2004 pela Fundação Roberto Marinho, a iniciativa apoia profissionais e instituições de ensino na promoção da educação para as relações étnico-raciais, prevista nas leis 10.639/03 e 11.645/08. Para isso, atua na formação de educadores, na disseminação de metodologias e na produção e circulação de materiais pedagógicos e de comunicação.
“Quando foi criado, o A Cor da Cultura foi pioneiro ao inserir a perspectiva afro-brasileira no campo educacional. Agora, nessa nova fase, o programa ganha ainda mais relevância ao incorporar também a abordagem dos povos originários”, explica Priscila Pereira, coordenadora da iniciativa.
“Nossa meta é formar 950 educadores, que retornam às suas escolas e secretarias para multiplicar essa metodologia entre outros professores. Serão distribuídos 6 mil kits nos 31 municípios prioritários, o que deve garantir o acesso ao material físico à maioria das escolas dessas redes. Além disso, outros educadores poderão acessar gratuitamente a versão digital, aberta ao público, no site do programa”, completa.
Nesta terça-feira (5), o Quilombo Santa Rita do Bracuí, em Angra dos Reis, na Costa Verde do Rio de Janeiro, recebeu cerca de 50 profissionais da rede pública municipal para uma formação presencial do programa. Ao longo do dia, marcado por trocas e vivências, os educadores experimentaram, na prática, princípios que orientam a proposta pedagógica do A Cor da Cultura, como cooperativismo, circularidade, ludicidade e afetividade, entre outros valores centrais da metodologia.
“Nós começamos o dia à beira de uma cachoeira, e isso é muito simbólico. O Rio Bracuí é o nosso coração. As pessoas não apenas ouviram sobre a história desse lugar, elas vivenciaram a natureza e a conexão que temos com ela. É uma outra forma de ver e estar no mundo, que também pode inspirar novas práticas educativas”, destaca Fabiana Ramos, nascida e criada no Quilombo Santa Rita do Bracuí e articuladora técnica de Educação Escolar Quilombola da Secretaria Municipal de Educação de Angra dos Reis.

O encontro presencial representa uma parte de uma formação mais ampla, com mais de 40 horas que continuará pelas próximas semanas. Além dos 50 educadores presentes, a expectativa é que a formação digital e o kit pedagógico cheguem em todas as 92 escolas da rede municipal de Angra dos Reis.
A coordenadora do Núcleo de Política Intersetorial e Diversidade da Secretaria de Educação, Norielem Martins, explica que a proximidade do Quilombo Santa Rita do Bracuí e da Aldeia Indígena Sapukai ajudam a fortalecer esse debate. Ela recorda que o município participou da primeira fase de implementação do A Cor da Cultura, em 2004, com forte mobilização de lideranças de comunidades tradicionais e professores.
“Alguns educadores mais antigos já conhecem essa metodologia e reverberam isso nas suas práticas. Com essa nova formação, a gente espera fortalecer isso, transformando debate em prática concreta. Experiências como essa que estamos tendo a oportunidade de vivenciar hoje mudam o olhar, fazem as pessoas se conectarem mais com a história, a cultura e os valores do território”, ressalta Norielem.
O professor de História, Sérgio Felipe Moraes, trabalha na Secretaria de Educação com formação continuada e produção de materiais didáticos. “Já estamos produzindo os materiais do segundo semestre que a rede irá utilizar e, antes mesmo do curso começar, eu já havia explorado o conteúdo do A Cor da Cultura. Fez muito sentido incorporar atividades, conceitos e vídeos ao nosso planejamento. Estamos conseguindo trabalhar essa perspectiva de forma transversal à história, e não como um capítulo apartado do contexto”, afirma.
Para a diretora escolar Suliana Costa, a oportunidade de formação, o acesso aos materiais pedagógicos e a construção dessa proposta educativa junto a outros professores fortalecem ainda mais o trabalho que já vem sendo desenvolvido na Escola Francisco Diniz, unidade próxima ao Quilombo de Santa Rita do Bracuí. “Temos alunos da cidade, do quilombo, da aldeia e das comunidades caiçaras. Essa composição multicultural nos tornou mais sensíveis à história e à cultura do território em que estamos. Acho que a formação fortalece esse caminho, contribuindo para uma prática pedagógica ainda mais conectada com a realidade dos estudantes”, afirma.
Um Brasil d’a Cor da Cultura
Entre 2004 e 2014, o A Cor da Cultura passou por três fases de implementação, alcançando mais de 9 mil educadores em 18 estados brasileiros. Para o momento atual, a metodologia e os materiais pedagógicos foram revisados, mantendo as premissas que consolidaram o programa como uma referência nacional, reconhecida pelo MEC em 2009 como tecnologia educacional.

As formadoras Luana Dias, representante da Fundação Roberto Marinho, e Viviane Lopes, coordenadora regional da Pneerq, destacaram o envolvimento de importantes referências negras e indígenas na construção dos materiais. Entre elas, Azoilda Loretto Trindade, intelectual negra com contribuições fundamentais para o debate das relações étnico-raciais no Brasil, além de idealizadora e primeira coordenadora pedagógica do A Cor da Cultura, no início dos anos 2000.
Na fase atual, o programa também incorporou conteúdos voltados ao ensino da história e cultura dos povos originários, com contribuições de nomes como Rita Potyguara, Gersem Baniwa e Rafael Xucuru-Kariri. O kit pedagógico, disponível no site do projeto, é composto por cadernos de textos, de palavras afro-brasileiras e indígenas e de metodologia, mapas das terras indígenas, das línguas originárias, do continente africano e da diáspora africana, além de ilustrações. Na versão física, o material inclui ainda jogos de tabuleiro.
Entre abril e junho de 2025, a expectativa é que o programa inicie a formação presencial em 31 municípios, contemplando os estados do Rio de Janeiro, Bahia, Maranhão, Goiás e Paraná.
