Notícia: Como a violência de gênero é percebida nas escolas brasileiras?

Como a violência de gênero é percebida nas escolas brasileiras?

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Pesquisa revela a percepção de professores, gestores e estudantes sobre assédio e agressões sofridas por alunas no ambiente escolar

No Brasil, quatro mulheres são mortas diariamente vítimas de feminicídio, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Embora a violência de gênero molde a vida cotidiana de meninas e mulheres, o assunto ainda é pouco abordado nas salas de aula — um paradoxo diante do consenso de que a educação tem papel chave para prevenir e enfrentar essa realidade. 

A escola, longe de ser um ambiente neutro, reflete e manifesta essas opressões. É o que demonstra o estudo “Livres para Sonhar? Percepções da comunidade escolar sobre violência contra meninas”, lançado pelo Instituto Serenas e realizado pela Plano CDE. Ao ouvir professores, gestores e profissionais das secretarias de educação, a pesquisa identificou que muitas violações são naturalizadas no cotidiano escolar, passando despercebidas pelos adultos. 

Enquanto o corpo docente costuma associar o termo apenas a episódios de agressão física, violência sexual ou LGBTfobia, práticas sexistas diárias relatadas pelas estudantes recebem pouca atenção. Na contramão dos adultos, as próprias alunas são quem mais identificam, vivenciam e denunciam essas dinâmicas. 

A violência de gênero praticada por alunos contra alunas se manifesta de várias formas, como comentários invasivos sobre corpos e roupas, xingamentos, contatos físicos forçados e na exposição não consentida da intimidade. Frequentemente minimizadas como "brincadeiras", essas agressões reforçam as desigualdades de gênero e constroem um ambiente hostil que silencia as estudantes. 

Imagem com duas caixas coloridas, uma azul e outra laranja. Dentro de cada uma, uma frase está em destaque entre aspas.
Relatos de estudantes para o estudo ‘Livres para sonhar’. Imagem: Reprodução.

O estudo aponta ainda o recorte de raça e características físicas na dinâmica das agressões. Meninas negras e gordas são os alvos preferenciais de práticas humilhantes de exclusão.  

Entre os professores ouvidos, 68% relatam já ter presenciado alunas sendo alvo de comentários constrangedores sobre seus corpos e roupas. Além disso, 70% afirmam já ter testemunhado a sexualização de alunas por seus comportamentos ou vestimentas. 

Agressões no ambiente digital 

A opressão ultrapassa os limites do espaço escolar. O bullying direcionado às meninas, que inclui difamação, apelidos depreciativos e isolamento social, foi mencionado por 76% dos professores entrevistados como uma prática recorrente no último semestre. Outros 47% apontaram a violência digital, caracterizada por ataques à imagem das estudantes, disseminação de boatos e compartilhamento não consentido de fotos íntimas. Casos de violência sexual, como toques indesejados e beijos forçados, foram citados por 21% dos docentes. 

O nível de objetificação e a sofisticação da violência digital são ilustrados por um relato da etapa qualitativa do estudo: em uma das escolas visitadas, todos os meninos entrevistados afirmaram conhecer grupos de WhatsApp criados exclusivamente para uma disputa de "quem beija mais meninas". 

Nesses grupos, os estudantes estabelecem uma pontuação para os corpos das adolescentes: enquanto atributos considerados “padrão” somam pontos, a discriminação contra meninas gordas ou fora dos padrões estéticos reduz a pontuação da disputa. Para validar os pontos, os jovens enviam fotos ou vídeos beijando as garotas. Um dos estudantes relatou que, em seu grupo, vídeos de atos sexuais eram compartilhados para inflar a pontuação. 

Situações como essa, onde a violência é facilitada pela tecnologia, é comum no dia a dia de professores: 43% deles confirmam ter tomado conhecimento, apenas no último semestre, de episódios em que alunos divulgaram imagens ou vídeos de conteúdo íntimo de alguma estudante, evidenciando a urgência do assunto. 

Uma ferramenta indispensável na prevenção a esse tipo de violência é o desenvolvimento de projetos sobre educação sexual e equidade de gênero. No entanto, esses debates enfrentam barreiras ideológicas e institucionais que frequentemente bloqueiam o diálogo tanto nas escolas quanto no ambiente familiar. Professores relataram que as próprias direções escolares, tensionadas por campanhas de desinformação e pelo medo de retaliações externas, desencorajam atividades que abordem esses temas. 

Esse cenário de desamparo institucional também se reflete na formação dos educadores: quase um terço (29%) dos professores brasileiros aponta a falta de respaldo e de capacitação técnica para mediar debates sobre violência de gênero em sala de aula. O reflexo mais grave desse isolamento pedagógico está na omissão das redes: 15% dos docentes assumem que suas escolas não adotaram absolutamente nenhuma ação preventiva ao longo do último ano letivo. 

Imagem com duas caixas coloridas, uma azul e outra laranja. Dentro de cada uma, uma frase está em destaque entre aspas.
Relatos de professores para o estudo ‘Livres para sonhar’. Imagem: Reprodução.

Violências cometidas por professores 

Os relatos revelam uma camada ainda mais alarmante da violência de gênero nas escolas: os abusos não se restringem às interações entre os estudantes. Os professores são frequentemente apontados pelas jovens como autores de comportamentos inadequados e violações, que se manifestam por meio de olhares invasivos, comentários de cunho sexual, perseguição em redes sociais, toques indesejados e tentativas de contato físico forçado. 

A percepção entre estudantes é de que esses episódios são recorrentes e blindados por uma cultura de impunidade institucional, o que desencoraja as denúncias. Essa percepção é confirmada pelo próprio corpo docente entrevistado no estudo, que reconhece a ocorrência dessas práticas. 

Mais da metade (51%) dos professores admitiram já ter presenciado, pelo menos "algumas vezes", colegas de profissão tecendo comentários machistas e constrangedores sobre o corpo e a aparência das alunas. Além disso, 15% dos docentes afirmaram ter conhecimento direto de casos de assédio sexual explícito cometidos por professores contra estudantes do sexo feminino no último semestre letivo, englobando cantadas, intimidação e propostas de cunho sexual. 

As consequências 

De acordo com os pesquisadores, a ocorrência da violência de gênero sabota o papel da escola como espaço seguro e gera impactos severos que ecoam por toda a vida das estudantes. Cruzando os depoimentos docentes com a literatura especializada, o estudo aponta que a violência atinge diretamente a trajetória escolar e a saúde integral das jovens. 

O primeiro impacto visível está no desempenho acadêmico e na frequência escolar. O ambiente hostil pode estimular que as meninas se ausentem e até abandonem a escola.  Além disso, a exposição contínua ao medo pode contribuir para quadros severos de ansiedade e depressão, corroendo a autoestima e a confiança das alunas. 

A pesquisa alerta ainda para as consequências drásticas na saúde sexual e reprodutiva, uma vez que a vulnerabilidade institucional expõe essas meninas à violência sexual e, por consequência, a gestações precoces e à infecção por ISTs. A gravidade desse cenário é mensurada pelo olhar de quem acompanha o cotidiano escolar: 71% dos professores ouvidos afirmam já ter testemunhado os danos profundos e duradouros que a violência de gênero deixa na vida, na saúde e nas aspirações de suas alunas.